“Educar meninos hoje é o melhor investimento em segurança pública”, diz psicóloga sobre prevenção da violência contra mulheres

“Educar meninos hoje é o melhor investimento em segurança pública”, diz psicóloga sobre prevenção da violência contra mulheres

Foto: Canva

Mais do que um crime isolado, o feminicídio é resultado de uma construção social que atravessa gerações. A avaliação é da psicóloga e pedagoga Patrícia Lucion Roso, que acredita que enfrentar a violência contra a mulher exige mudanças profundas na forma como a sociedade educa meninos e meninas. A análise da especialista dialoga com os dados recentes de feminicídios no Rio Grande do Sul, que registrou 20 mortes apenas nos primeiros meses de 2026.

+ Receba as principais notícias de Santa Maria e região no seu WhatsApp

Para Patrícia, tratar o feminicídio apenas como um caso individual impede que a sociedade compreenda a dimensão do problema.

— Historicamente, a violência contra a mulher foi trancada na esfera doméstica, o famoso “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Quando tratamos um crime desses apenas como um caso isolado, na verdade estamos protegendo a estrutura que o criou.

Segundo ela, admitir que o feminicídio é estrutural exige reconhecer falhas em diferentes instituições sociais.

— Admitir que o feminicídio é estrutural exige que a gente aceite que várias instituições (a escola, a igreja, a justiça e a mídia) falham e reproduzem desigualdades que terminam em morte. É muito mais "confortável" para a sociedade punir um único agressor do que rever toda a sua base de valores. Além disso, o sistema jurídico foca no ato final (o tiro, a facada), mas não consegue ter a dimensão do processo que gerou o fato. O feminicídio raramente é um ato impulsivo; ele é o desfecho de um ciclo de dominação. Enquanto o Estado focar apenas em "enxugar gelo" e punir o crime depois que ele ocorre, sem romper a ideia de que a mulher é um objeto, continuaremos falhando.

Masculinidade construída na violência

A psicóloga explica que a forma como os meninos são educados influencia diretamente a reprodução da violência de gênero. Segundo ela, muitos meninos crescem sem aprender a lidar com emoções.

— A masculinidade tradicional não é biológica, é uma construção cultural que usa a violência como pilar de validação. Diferente da feminilidade, que costuma ser vista como algo intrínseco, o "ser homem" parece ser algo que precisa ser provado e conquistado o tempo todo. Se esse homem sente que sua autoridade ou "honra" foi ferida, ele usa a violência para restaurar seu status. Desde pequenos, os meninos são punidos se demonstrarem vulnerabilidade. O resultado é que eles não aprendem a negociar sentimentos, aprendem a impor vontades. Nesse cenário, a mulher vira o "objeto" que valida essa masculinidade.

Essa lógica ajuda a explicar uma frase frequentemente associada aos crimes de feminicídio.

— Por isso a autonomia dela é vista como uma ameaça direta: se ela decide trabalhar fora ou terminar a relação, ele interpreta como uma perda de "propriedade". O feminicídio acaba sendo o ato final de tentativa de controle: "Se não for minha, não será de mais ninguém".

Para a especialista, uma das formas mais eficazes de prevenir a violência é investir na educação emocional das crianças, que aprendem a lidar com frustrações tendem a desenvolver relações mais saudáveis na vida adulta.

— Na prática, educar emocionalmente não é só ensinar a criança a dar nome ao que sente; é quase uma "alfabetização" política e social. Quando uma criança aprende a identificar suas emoções, ela ganha ferramentas para se defender da cultura do silenciamento. Significa substituir o controle pela autorregulação. Isso envolve, por exemplo, ensinar que sentir raiva é legítimo (sentimento), mas bater é inaceitável (comportamento). A violência quase sempre nasce dessa incapacidade de processar o desconforto sem partir para a agressão. Na infância, isso é vital porque é o momento em que os modelos são criados. Se a gente oferece esse contraponto, mostramos que o afeto não deve doer. Desenvolver a empatia desde cedo faz com que a criança se torne incapaz de ignorar o sofrimento alheio, o que reduz o bullying hoje e a violência doméstica amanhã.

A chamada “pedagogia da invisibilidade”

Patrícia também chama atenção para pequenas atitudes do cotidiano que reforçam desigualdades de gênero. Ela define esse processo como “pedagogia da invisibilidade”.

—  São gestos e falas cotidianas que ensinam que o mundo é dividido entre quem domina e quem serve. Dentro de casa, a semente é plantada quando reforçamos que a menina deve cuidar e o menino deve ser provido, ou quando naturalizamos uma comunicação agressiva entre os pais.

Isso aparece, por exemplo, quando tarefas domésticas são associadas apenas às meninas ou quando comportamentos agressivos são naturalizados entre meninos.

— Muitas vezes, os adultos reforçam isso sem perceber, ao associar gestos de violência a "demonstrações de afeto" ou ao desqualificar o trabalho doméstico. Romper isso exige uma vigilância constante, porque estamos lutando contra algo que passa de geração em geração.

Papel da família e da escola

Para a psicóloga, a mudança cultural necessária para enfrentar o feminicídio depende principalmente da atuação conjunta da família e da escola.

A família é o primeiro modelo: os filhos precisam ver o pai lavando a louça e cuidando da higiene da casa para entender que isso é uma responsabilidade humana, não de gênero.

​Já a escola tem papel importante na construção da cidadania.

— É o lugar de orientar para a cidadania ética e trabalhar temas como consentimento e educação sexual. O grande "gargalo" hoje é quando a escola tenta ensinar igualdade e a família reforça o machismo em casa (ou vice-versa). Elas precisam falar a mesma língua para que a mudança realmente aconteça.

Mudanças começam no cotidiano

Mesmo sem grandes políticas públicas, Patrícia acredita que transformações culturais podem começar nas atitudes do dia a dia.

— Educar meninos hoje é o melhor investimento em segurança pública que existe. É prevenir em vez de remediar o dano. Como o feminicídio é o fim de um longo processo de aprendizado, a gente tem a chance de cortar o combustível dessa violência lá na base. Se ensinarmos os garotos a gerenciar frustrações e a não projetar culpa nos outros, impedimos que um agressor se desenvolva. Experiências com grupos de reabilitação de agressores mostram que a reeducação funciona. Agora, imagine se fizermos isso preventivamente, ainda na infância e na adolescência? É agir na origem do problema.

E ela ainda reforça que a segurança pública sozinha não resolve um problema que nasce na cultura; ela apenas dá uma resposta punitiva.

— O investimento "real" seria em currículos escolares que discutam estereótipos de gênero e consentimento, além de práticas educativas que validem a autonomia das meninas. Também é urgente investir em grupos reflexivos para homens que já cometeram violência e em programas de autonomia econômica para as mulheres. O feminicídio precisa parar de ser visto como uma "fatalidade" e passar a ser encarado como uma falha do Estado em proteger suas cidadãs

Para ela, atitudes simples podem ajudar a romper o ciclo da violência:

  • não tolerar piadas machistas
  • dividir tarefas domésticas
  • incentivar meninas a ocupar espaços de liderança
  • acolher mulheres em situação de risco

 Políticas públicas levam tempo e dinheiro, mas a cultura é um "tecido vivo" que a gente costura todo dia. A mudança começa quando decidimos não mais tolerar ou silenciar. [...] Precisamos tirar o agressor da zona de conforto do "segredo doméstico" e mostrar que a comunidade está atenta — finaliza a especialista.


Carregando matéria

Conteúdo exclusivo!

Somente assinantes podem visualizar este conteúdo

clique aqui para verificar os planos disponíveis

Já sou assinante

clique aqui para efetuar o login

“Educar meninos hoje é o melhor investimento em segurança pública”, diz psicóloga sobre prevenção da violência contra mulheres Anterior

“Educar meninos hoje é o melhor investimento em segurança pública”, diz psicóloga sobre prevenção da violência contra mulheres

Homem armado assalta farmácia no centro de Santa Maria Próximo

Homem armado assalta farmácia no centro de Santa Maria

Polícia/Segurança